Os efeitos do Batismo e nossa incorporação em Cristo

Batismo de Santo Inácio de LoyolaO Batismo é, em grau de necessidade, o maior dos Sacramentos da Santa Igreja Católica, e absolutamente indispensável à salvação. Com ele é iniciada a vida cristã na alma.

Pertencendo à descendência de Adão, herdamos dele o pecado original, que degradou a natureza humana, e se não bastasse temos os pecados atuais que, nos arrastam ainda mais para baixo. Mas da mesma forma que contraímos o pecado original por descendermos de Adão, para sermos justificados é preciso nascer em Cristo nas águas do batismo, o qual apagam o pecado de nossa alma, como comenta o grande teólogo Cornélio a Lápide:

“O batismo é um sacramento que apaga o pecado original, nos torna filhos de Deus e da Igreja… O batismo é a cruz de Jesus Cristo aplicada sobre nós… Pelo batismo, nós somos crucificados com Jesus Cristo… Ora, a cruz é a morte e destruição dos pecados. […] Assim como é necessário nascer de Adão, segundo a carne, para contrair o pecado original; assim também, para participar na justificação por Jesus Cristo, é preciso nascer dele, segundo o espírito, pelo batismo.”[1]

Quais são, entretanto, os efeitos que o batismo produz na alma de quem o recebe? Antes de nos adentrarmos no assunto, vale recordar que tais efeitos são os mesmos para todos batizados. Este efeito pode ser influenciado pelas disposições pessoais, e cada um participa desta graça de renovação na medida de sua própria devoção, de sua compenetração. A respeito deste ponto nos ilumina o Doutor Angélico:

“O efeito essencial do batismo é aquele para o qual o batismo foi instituído, ou seja: gerar os homens para a vida espiritual. Já que todas as crianças se encontram na mesma situação diante do batismo, porque não são batizadas na fé própria, mas na fé da Igreja, todas experimentam o igual efeito. Mas os adultos, que se aproximam do batismo por sua própria fé, não se encontram na mesma situação diante do batismo: alguns se aproximam com maior, outros com menor devoção. E por isso alguns recebem mais, outros menos abundância da graça renovadora.”[2]

A Paixão e a Morte de Cristo são o remédio universal a todos os pecados. Sendo batizada, a alma é crucificada com Jesus Cristo, como o disse Cornélio a Lapide. E ainda, ao receber o batismo, ela dá testemunho, passa a aderir diretamente à Paixão de Cristo e é incorporada àqueles que se beneficiam mais especialmente dos frutos da Paixão do Redentor.

  • O batismo é um banho de purificação que apaga os pecados

O batismo apaga os pecados, pois por ele o pecador é sepultado na morte de Cristo, ele morre à veleidade do pecado e começa a viver na graça de Deus: “portanto, vós também considerai-vos mortos ao pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus.” (Rm 6, 11) Com efeito mostra-nos muito bem o Pe. ROYO MARÍN:

“[O batismo] perdoa ou apaga totalmente o pecado original e todos os pecados atuais que tenha cometido o batizando. O definiu o concílio de Trento contra os protestantes (Dz 794). É uma conseqüência inevitável da infusão da graça, incompatível com o pecado.”[3]

Claro está que quando se trata de uma criança, ou seja, antes do uso da razão isto se dá diretamente, mas quando se trata de um adulto é preciso, para que o sacramento seja válido e lícito, que ele tenha pelo menos um ato de atrição sobrenatural, que Deus dará como uma graça atual.

  • O batismo apaga toda pena, seja eterna ou temporal, devida aos pecados

Sabemos que todo pecado, além da culpa, traz consigo uma penalidade, que é uma dívida a ser paga pelo dano causado à ordem lesada. E isto também é, por efeito do batismo apagado, de tal modo que se um pecador morrer logo após seu batismo, vai diretamente para o Céu. Comenta-nos o Pe. ROYO MARÍN sobre este efeito:

“[O batismo] perdoa toda pena devida aos pecados, tanto a eterna como a temporal. A razão fundamental deste efeito tão maravilhoso a dá São Tomás nas seguintes palavras: ‘A virtude da paixão de Cristo opera no batismo à maneira de uma certa geração, que requer indispensavelmente a morte total da vida pecaminosa anterior com o fim de receber a nova vida; e por isso o batismo apaga todo o resquício de pena que pertence à velha vida’.”[4]

Não seria vão recorrermos mais uma vez a São Tomas de Aquino para complementar este tema:

“Pelo batismo somos incorporados na paixão e morte de Cristo. Diz Paulo: ‘Se estamos mortos com Cristo, cremos que também viveremos com ele.’ Demonstra-se assim que a todo batizado a paixão de Cristo é comunicada para servir de remédio, como se ele próprio tivesse sofrido e morrido. Ora, a paixão de Cristo é satisfação suficiente para todos os pecados de todos os homens. Por isso, quem é batizado, é liberto do reato de toda a pena devida por seus pecados, como se ele próprio tivesse oferecido uma satisfação suficiente por todos os seus pecados.”[5]

Vemos então que aquele que recebeu o batismo não precisa mais satisfazer seus pecados por alguma penitência, tendo-se tornado um membro de Cristo ele participa da Paixão e Morte do Salvador, como se ele mesmo as sofresse, e como nos foi dito por São Tomas, “a Paixão de Cristo é satisfação suficiente para todos os pecados e de todos os homens”.

  • Porém, se o batismo apaga todos os pecados, o que se passa com os efeitos destes? Também são apagados?

Sabe-se que o batizado não é isento das seqüelas deixadas na alma pelos pecados, seja o pecado original, ou os atuais. Mesmo tendo o pecado original apagado, o batizado assim mesmo é passível de sofrimento, de doenças, sofre os efeitos da concupiscência, não recupera o dom de integridade, e ao fim do curso desta vida morre. Se não bastasse há ainda os hábitos maus que ele adquiriu (no caso de um adulto), conseqüências dos pecados atuais; ou então os hábitos maus que ele possa ter herdado (seja criança ou adulto). Tudo isso não é apagado pelo batismo.

A razão disto é altíssima, e muito bela. De fato, estes efeitos permanecem na alma pois o batizado, passando a ter parte com Cristo, a ter união em seu Corpo, precisa parecer-se com Ele. O Salvador mesmo tendo assumido nossa carne, não desdenhou as imperfeições que são próprias a ela depois da queda de nossos primeiros pais: Ele tomou um corpo passível de sofrimento e mortal. Deste mesmo modo, como Ele, também nós devemos sofrer e morrer.

Quanto à concupiscência e às tentações, nos servem de meio para provar nossa adesão a Cristo rechaçando-as, dando-nos assim maior mérito. O batismo atenua nossas más inclinações, e nos estimula à prática do bem. Porém não nos livra das tentações, como o Redentor não foi liberto, quando de sua Encarnação, e nem nos priva da luta contra todo mal, seja interno ou externo. Diferentemente de um não batizado o cristão encontra, graças a este sacramento, forças para triunfar sobre os assaltos do mal e vencer as tentações.

Tudo isto não significa que o batismo não tenha forças, ou não seja suficiente para apagar nossas más inclinações, pois ele as tem. Na ressurreição os efeitos do batismo estarão completos.

Com efeito, afirma São Tomas: “O batismo tem força de tirar as penalidades da vida presente; não as tira, porém, na vida presente, mas por sua força os justos são isentos delas na ressurreição, quando ‘este ser mortal for revestido da imortalidade’ como está na primeira carta aos Coríntios.”[6]

Cristo Crucificado. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, Arautos do Evangelho, Grande São Paulo
Cristo Crucificado. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, Arautos do Evangelho, Grande São Paulo
  • A incorporação em Nosso Senhor Jesus Cristo

A guisa de conclusão, não poderíamos deixar de discorrer sobre um dos principais efeitos deste sacramento: a incorporação em Nosso Senhor Jesus Cristo. A isto chamamos de caráter, marca indelével que este sacramento nos confere. Com efeito, sobre este assunto, encontramos num manual de teologia:

“Todos estes efeitos se resumem em uma só palavra, que exprime o todo: o batizado é incorporado ao Cristo, torna-se membro de seu corpo vivo. É preciso sublinhar fortemente o realismo vivo desta noção: batizado no Cristo, o neófito é mergulhado nele, entra nele […]. O batismo o marcou com seu selo, com seu “caráter”, realidade misteriosa impressa na inteligência, e que realiza nele esta semelhança com o Cristo […].

“Incorporado ao Cristo, o batizado é por esta via incorporado à Igreja […]. A Igreja nasceu na Cruz, da água que corria do lado aberto de Jesus, Ela nasce sem cessar na água do batismo que lhe agrega cada dia novos filhos.”[7]

Pe. Michel Six, EP

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[1] «Le baptême est un sacrement qui efface le péché originel, nous fait enfants de Dieu et de l’Église… Le baptême, c’est la croix de Jésus-Christ appliquée sur nous… Par le baptême, nous sommes crucifiés avec Jésus-Christ… Or, la croix est la mort et la destruction des péchés…

Comme il est nécessaire de naître d’Adam selon le corps, pour contracter le péché originel; ainsi, pour participer à la justification par Jésus-Christ, il est nécessaire de naître de lui, selon l’esprit, par le baptême» (BARBIER I, 1885, p. 183).

[2] Cf. Suma Teológica III, Q. 69, a. 8.

[3] Remite o borra totalmente el pecado original y todos los pecados actuales que haya cometido el bautizando.

Lo definió El concilio de Trento contra los protestantes (D792) [sic]. Es una consecuencia inevitable de la infusión de la gracia, incompatible con el pecado (1984, p. 94 ).

[4] Remite toda la pena debida por los pecados, tanto la eterna como la temporal. La razón fundamental de este efecto tan maravilloso la da Santo Tomas en las seguintes palabras: “La virtud o mérito de la pasión de Cristo obra en el bautismo a modo de cierta generación, que requiere indispensablemente la muerte total a la vida pecaminosa anterior con fin de recibir la nueva vida; y por eso quita el bautismo todo el reato de pena que pertenece a la vieja vida anterior (1984, p. 95).

[5] Cf. Suma Teológica III, Q. 69, a. 2.

[6] Cf. Suma Teológica III, Q. 69, a. 3 “Respondo”.

[7] Tous ces effets se résument en un seul mot, qui explique tout : le baptisé est incorporé au Christ, devient membre de son corps vivant. Il faut souligner fortement le réalisme vivant de cette notion : baptisé dans le Christ, le néophyte est plongé en lui, entre en lui […]. Le baptême l’a marqué de son empreinte, de son « caractère » réalité mystérieuse, imprimée en son intelligence, et qui réalise en lui cette ressemblance au Christ […].

Incorporé au Christ, le baptisé est par lá incorporé à l’Église […]. L’Église est née à la Croix de l’eau qui coulait du côté ouvert de Jésus, elle naît sans cesse dans l’eau du baptême qui lui agrège chaque jour de nouveaux enfants (VV.AA. 1956, p. 481, 482).

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 142ª ed. São Paulo: Ave Maria, 2001.

-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Vol. IX. São Paulo: Loyola, 2006.

-BARBIER, Abbé. Les Trésors de Cornelius a Lapide – extraits de ses commentaires sur l’Écriture Sainte à l’usage des prédicateurs des Communautés et des familles chrétiennes. Vol. I. 5ª ed. Paris: Librairie Poussielgue Frères, 1885.

-ROYO MARÍN, Antonio. Teologia Moral para seglares – los sacramentos. Vol. II. 4ª ed. Madrid: B.A.C., 1984

-VV. AA., Initiation Théologique. Vol. IV. Paris: Éditions du Cerf, 1956.

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