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Um conto sobre o dia de Finados

Era uma vez uma cidade chamada Cachoeira Dourada… Na semana que antecedia Finados, o seu jovem pároco, Pe. Flaviano, estava em visita ao cemitério, a fim de verificar alguns detalhes para celebração que ali teria lugar em memoria dos mortos. Ou seja, uma Missa junto ao grande cruzeiro na área central do cemitério, a qual seria animada pelo coral de jovens e grupos de oração. Também seriam feitas visitas a alguns jazigos.

Ao concluir sua visita o sacerdote sentou-se num dos bancos, sob um frondoso arvoredo, e após atender um telefonema, teve uma boa surpresa: ver se aproximarem dois antigos paroquianos, que estavam em visita à cidade, Prof. Euclides e seu filho Romeu, acadêmico de Direito e que havia sido seu coroinha. O professor ficara viúvo ha poucos meses; para ele a ideia da morte estava ainda bem presente. Por isso, depois de um rápido cumprimento, foi logo dizendo:

“– Flaviano, Finados, de fato, é para mim uma data triste e incômoda. Tenho horror em pensar naqueles que já morreram e também na fatalidade de minha própria morte. Ah, se fosse possível eu gostaria de saltar essa data, e esquecer tudo… Eu acho mesmo que o melhor modo de me preparar para a morte é não pensar nela!”

Com uma expressão cordial, o sacerdote respondeu-lhe:

“ — Professor, para que se tenha uma posição inteiramente equilibrada sobre a morte é necessário ter uma posição inteiramente equilibrada sobre a vida. O que nos ensina o Catecismo: o homem através da sua inteligência pode alcançar algumas noções sobre o sentido de sua vida, mas é, sobretudo, pelo dom da Fé que ele pode encontrar uma explicação completa. Para que se vive? Somente para comer, trabalhar, divertir-se, sofrer e depois desfazer-se como uma folha seca? Não. O ser humano é superior aos vegetais e aos animais, pois é dotado de inteligência, vontade e sensibilidade, ou seja, tem uma alma imortal. A alma, portanto, leva-o a procurar a conhecer, amar e unir-se a seu Criador. A Igreja, com seus ensinamentos e com suas celebrações litúrgicas, visa estreitar esse vínculo entre o Criador e a criatura, durante a vida terrena, de modo a realiza-lo plenamente na eternidade.”

Euclides ouvira com atenção e interesse, mas aproveitou para apresentar mais uma dificuldade:

“—Olha, Pe. Flaviano. Um de meus amigos já me disse uma coisa que me deixou intrigado. Ele considera que qualquer pessoa deve decidir sozinha qual o modo de vida ou filosofia a seguir. Esse meu amigo, concretamente, prefere seguir Sartre e sobretudo Marcuse. Em outras palavras, cada um tem liberdade total de fazer o que quiser, e pode elaborar sua própria filosofia, se assim o desejar… O Sr. o que diz?

“— Ė verdade que, em principio,  homem é dotado de inteligência e, portanto, de capacidade de discernir algumas verdades, conforme nos ensina São Tomás de Aquino” – respondeu o sacerdote. E ressaltou: “—Entretanto, tal capacidade não é absoluta, isto é, tem um limite, e por isso o ser humano necessita do indispensável auxilio da revelação divina…”

Nesse momento, Romeu, que tudo ouvia com atenção, resolveu intervir:

“— Existe o risco, se a pessoa se considera autossuficiente e capaz de decidir absolutamente tudo por si mesma, de cair na enfermidade moral do narcisismo. Ou seja, na situação daquele personagem da mitologia grega, condenado a permanecer contemplando continuamente a sua própria imagem refletida na água, por causa de sua extrema presunção e egoísmo. Assim, quem se considera o centro do mundo caminha de modo inevitável para um vácuo insustentável, terminando por sentir-se completamente prostrada. Por isso todo o homem tem necessidade de uma lei, de um mestre, que o ajude a conhecer a Deus. Afinal, muitos desses autossuficientes, reconhecendo sua debilidade, recorrem aos horóscopos. Já discutimos esse tema na Universidade”.

Tanto Pe. Flaviano quanto Prof. Euclides ouviram com certo interesse a intervenção do jovem Romeu. Ele sentiu-se, por isso, animado a se estender um pouco mais:

“— Meu pai, conforme já disse o Pe. Flaviano, o ser humano tem necessidade de algo absoluto, tem necessidade de elevar-se ao plano sobrenatural. Tive que pesquisar sobre esse tema: como a atual sociedade consumista e tecnológica deixa um imenso vácuo na alma das pessoas, estas sofrem terrivelmente. Médicos, principalmente nos países desenvolvidos, têm deitado atenção sobre  uma doença que está avançando inexoravelmente: a depressão. Suas vítimas, não obstante possam usufruir de todo o conforto, de todos os prazeres, sentem-se extremamente frustradas e infelizes.  Um dos estudiosos comentava que a depressão é o tributo a ser pago pela sociedade sem Deus.”

Prof. Euclides, que parecia satisfeito com a conversa, disse:

“—Pe. Flaviano, quando o Sr. fez seus estudos em Roma teve oportunidade de conhecer muitos monumentos e igrejas. O Sr. deve ter muito boas recordações, não é?

Prontamente, respondeu o sacerdote:

“Agora neste cemitério, veio-me à lembrança um expressivo sarcófago de mármore, do século III da era cristã, que tive ocasião de conhecer quando se encontrava exposto na sacristia de uma basílica romana.

“Tratava-se do sarcófago de um menino de família patrícia, e cuja lápide de cobertura apresentava, ao lado das inscrições em latim, uma escultura, em baixo relevo, de Jesus Cristo, portando numa das mãos um rolo de pergaminho e na outra um bastão.

“Segundo as concepções da época, nesta representação Jesus era reconhecido como o verdadeiro filosofo, que segura numa das mãos o pergaminho, símbolo do saber, e na outra o bastão do bom pastor. O bastão identifica, portanto, a condição de Mestre, capaz de indicar aos homens a ciência do que é verdadeiramente viver e  morrer. É reconhecido como aquele capaz de ensinar a todas as pessoas o itinerário a seguir durante a vida, até alcançar o seu fim último, a eternidade.

“Assim, naquele crepúsculo da Roma clássica e nos albores da cristandade, a figura de Jesus Cristo se destacava notavelmente da massa de filósofos que proliferaram antes, alguns deles simples charlatões. Ao longo dos séculos, naturalmente, foi se firmando a noção de que Jesus era mais do que um grande filosofo. Era o Filho de Deus, verdadeiramente a indicar a todos os homens o caminho, a verdade e a vida!

“A expressiva lição contida nessa lápide é muitíssimo adequada também para nossa época, tão confusa e dramática. Podemos recordá-la com proveito nestes dias de Finados!” – concluiu o sacerdote.

Prof. Euclides, visivelmente satisfeito, estendeu a mão para despedir-se do Pe. Flaviano, dizendo:

“— Pe. Flaviano, desculpe minhas objeções, mas gostei de ouvir suas explicações. Valeu por uma homilia!”

“— Foi um prazer, Prof. Euclides. E parabéns a seu filho Romeu!”

Pe. Flaviano, retornando à Matriz, agradecia ao Senhor a oportunidade daquele encontro, e implorava à Santíssima Virgem sua maternal proteção sobre aqueles seus dois amigos.

Pe. Colombo Nunes Pires EP